quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Espetáculo Mais Triste da Terra – O Incêndio do Gran Circo Norte Americano

Você se lembra do incêndio do edifício Joelma? Com certeza a resposta será: “Claro que sim!”. Mas se eu lhe perguntar sobre o incêndio do Gran Circo Norte-Americano, você ficará “boiando” – como costumava dizer o meu velho pai, o saudoso Kid Tourão.
Mas, se compararmos as proporções das duas tragédias, o incêndio do circo que aconteceu em 17 de dezembro de 1961 em Niterói,  foi muito mais devastador. Segundo dados oficiais, o Joelma teve 191 vítimas fatais, enquanto o Gran Circo Norte-Americano computou, supostamente 503 mortes. Mas por que ‘supostamente’? Cara, o incêndio foi tão demolidor, tão catastrófico, que após mais de meio século anos ninguém conseguiu apontar, exatamente, quantas pessoas perderam a vida carbonizadas. Alguns estudiosos acreditam que esse número chegou a mil.
Há uma explicação para que esta tragédia tenha caído no esquecimento através dos anos: a sua gravidade. O incêndio atingiu proporções tão dantescas que o Rio de Janeiro – incluindo moradores, autoridades e médicos que atenderam as vítimas naquela época – preferiram apagá-lo de suas memórias, de suas vidas. Tanto é, que poucos cariocas gostam de falar sobre o assunto. E esta foi uma das barreiras encontradas pelo autor fluminense, Mauro Ventura para escrever o seu livro. Mas após um exaustivo e minucioso trabalho investigativo, ele conseguiu desenterrar informações preciosas sobre o incêndio.
“O Espetáculo Mais Triste da Terra” foi um dos livros jornalísticos mais  esclarecedores que já em toda a minha vida: uma obra completa. Ventura explorou todos os ângulos da catástrofe que paralisou o País há 54 anos. Mesmo sem o advento da internet e nem mesmo dispondo da facilidade do DDD (Discagem Direta a Distância) – a Embratel só surgiria em 1965 – o incêndio do Gran Circo Norte-Americano causou comoção em praticamente todo o mundo, mobilizando médicos, artistas e voluntários de vários países, logo após a tragédia.
Após entrevistar médicos e sobreviventes, o autor conta detalhadamente como ocorreu o incêndio. A sessão do circo chegava ao fim quando se ouviu o grito de “Fogo!”. Na hora em que a trapezista Antonieta Stevanovich deu o alerta, mais de três mil pessoas, a maioria crianças, lotavam a matinê do dia 17 de dezembro de 1961, em Niterói, então capital do estado do Rio.
Bastaram menos de dez minutos para que Niterói nunca mais fosse a mesma.
Ventura reconstitui em detalhes o drama das pessoas que enfrentaram um verdadeiro inferno naquele dia. Um fato funesto que ajudou a projetar o nome do cirurgião plástico Ivo Pintanguy e que contribuiu para desenvolver a cirurgia plástica no Brasil.
Devido a franqueza do autor - que não esconde nada, ‘derramando’ na mesa, sem meias palavras, todo o resultado de toda a sua pesquisa - o livro chega a ter trechos chocantes e que impressionam o leitor, como por exemplo o momento em que ele revela que o número de vítimas era tão grande que chegavam a ser transportadas em caminhões: mortos e agonizantes lado a lado, já que não dava para identificar os mortos dos vivos.
Outra passagem forte é o capítulo em que Ventura reconstitui o exato momento do acidente. Cara, é como se você estivesse ali, no meio daquelas três mil pessoas. “Crianças, adultos e velhos foram atropelados e pisoteados quando tentavam escapar. O perigo também vinha do alto. À medida que as chamas avançavam pela cobertura, davam origem a uma chuva de gotas incandescentes, que atingiam corpos e cabeças”.
Um suspeito pelo incêndio logo foi detido, mas sua prisão dividiu o País: seria Dequinha o verdadeiro culpado ou um exibicionista que tinha mania de assumir crimes que não havia cometido? Para uns, ele era o mais terrível genocida de que até hoje se tem notícia no Brasil; para outros, o bode expiatório ideal para dar satisfações rápidas à sociedade.
Juro que as falhas da polícia carioca no caso me deixaram boquiaberto. Teve situações hilárias que mais se pareciam com os quadros do humorístico Zorra Total, entre os quais a ‘brilhante’ tática de disfarce adotada pelos policiais para evitar o linchamento de Dequinha pelas pessoas insandecidas que cercavam o prédio da delegacia. Pois é, os ‘experts’ decidiram criar um disfarce de PM para o suposto assassino com direito a quepe, farda e outros apetrechos. Tudo estaria nos ‘trinques’ se os investigadores não tivessem se esquecido dos sapatos ou coturnos. Iimagine você vendo um oficial da polícia muito bem trajado, mas descalço!
Quer mais? Ok, lá vai. Quando a viatura da polícia estava conduzindo Dequinha para um lugar secreto – executando várias manobras para despistar o grande número de curiosos – tentando ser a mais discreta possível - o motorista se esqueceu de um detalhe. Desligar sirene!!
Enfim, um livro sem segredo e que estará desnudando todo o mistério que envolveu o incêndio do Gran Circo Norte-Americano.
Confiram abaixo algumas passagens bem fortes de “O Espetáculo Mais Triste da Terra” que selecionei após a leitura. Trechos que deixam mais do que evidente a dimensão daquela tragédia.
“O governador do Rio, Celso Peçanha, convocou os serviços de todos os marceneiros e carpinteiros para a fabricação urgente de caixões no estádio Caio Martins. A quadra  ficou lotada. Mal os esquifes eram finalizados, seguiam levados por outros voluntários. O barulho das marteladas na madeira foi ouvido a noite toda pela cidade. Ninguém cobrou nada pelo trabalho. No total, governo e prefeitura mandaram construir 400 caixões”.

“O fogo teve início a cerca de vinte metros da entrada, do lado esquerdo. Veio de baixo, a menos de três metros do chão, mas lambeu a lona com tamanha rapidez que, ao ser visto, não pode mais ser contido. As labareda avançaram com uma fúria inconcebível num espaço que até pouco antes era dominado pela alegria das crianças.”

“No início, vinham uma, duas, três, no máximo quatro vítimas por veículo. Logo depois, já paravam na porta do hospital caminhões com feridos empilhados”.

Enfim galera, é isso aí. Em alguns momentos me coloquei no lugar daquelas famílias e percebi que estava com os olhos úmidos.
Leitura obrigatória para aqueles que querem saber todos os detalhes da maior tragédia que o nosso país enfrentou nas últimas cinco décadas.
Inté!


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