sexta-feira, 5 de junho de 2015

Cimarron

Ontem, estava dando uma espanadinha no pó da minha estante quando me deparei com um livro esquecido há ‘milênios’. Ele estava lá, num cantinho, isolado, tombado e todo menosprezado. Ao ver a sua capa, lembrei-me de sua origem. “- Caraca! Este é aquele livro que ganhei daquela pessoa que me ‘doou’ uma caixa cheia de revistas antigas!”, exclamei. Pois é galera, “Cimarron”, de Edna Ferber veio junto com um monte de revistas rasgadas e velhinhas, sem utilidade pra nada. Do quase presente de grego que ganhei; o livro e, acho que, duas revistinhas ‘Seleções’ foram as únicas coisas que se salvaram.
Achei a capa bonita e o coloquei na estante, apenas para fazer número. O motivo da falta de interesse na obra de Ferber (escrita originalmente em 1957 – a minha edição é um relançamento do Círculo do Livro) é que nunca senti amores por livros de faroeste. E foi aí que cometi um erro crasso, já que “Cimarron não pode ser considerada uma obra tradicional do gênero, ou seja, do tipo ‘cospe bala’ para todos os lados. Após ter lido e gostado da obra, posso dizer que a essência do enredo diz respeito ao desbravamento do território de Oklahoma, representando uma fase da história dos Estados Unidos.
Aí você, com certeza, afirmará: - “Pô, se for assim, o enredo deve ser muito descritivo e cansativo!”. Não. Não é. Por acaso, você achou “As Vinhas da Ira” John Steinbeck cansativo? Os dois livros abordam momentos diferentes da história americana. Steinbeck explora a Grande Depressão dos anos 30 que destruiu fazendas, despejou famílias e deixou milhões de desempregados nos Estados Unidos. O desespero levou os pequenos arrendatários que perderam as suas propriedades a realizar um verdadeiro êxodo para a Califórnia em busca de emprego. Terra, que segundo eles, corria o leite e o mel, mas ao chegarem lá, acabam conhecendo a dura realidade e foram obrigados à enfrentá-la.
Já “Cimarron” aborda um período bem mais remoto da história da ‘Terra do Tio Sam’: a colonização do estado de Oklahoma que começou no início do século XIX.
Posso garantir que as duas obras, apesar de descritivas, tem enredos por demais atraentes, além de contar com personagens muito carismáticos. Se em “As Vinhas da Ira” temos a família Joad; em “Cimarron” temos os Yancey. Cada um, à sua maneira, tentando derrubar muros considerados intransponíveis, erguidos por grupos de pessoas poderosas.
Ferber conta a saga do advogado, ex-jornalista e aventureiro Yancey "Cimarron" Cravat que em 1889 se casa com uma dama do Sul e resolve retornar ao Oeste, tentando conseguir as terras com as quais sonhara construir um rancho e criar gado, aproveitando a "Corrida pela terra" iniciada com a concessão do governo americano de vários hectares  de Oklahoma para a colonização, adquiridos dos índios. E assim, o casal acaba se transformando em pioneiros do novo estado americano. Além dos Yancey, são vários os competidores pelas terras, alguns, ao logo da jornada acabam se tornando seus amigos, enquanto outros viram inimigos.
Dentro desse contexto, ocorrem as brigas, trocas de tiros, romances, desavenças e traições. O que me chamou a atenção é que a autora soube dosar com perfeição, romance, drama, descrição e ação; da mesma maneira que Steinbeck também procedeu com o seu “Vinhas da Ira”.
Os personagens que vão desfilando nas páginas de “Cimarron” acabam conquistando os leitores; até mesmo os vilões e vilãs tem o seu charme.
Para aqueles que ainda relutam ler a saga dos Yancey, posso tentar convencê-los, usando o argumento de que a história de Ferber serviu de roteiro para dois verdadeiros clássicos do cinema. O primeiro “Cimarron” que passou nos cinemas em 1931 com Richard Dix e a ultra famosa e disputadíssima, naquela época, Irene Dunne conquistou as estatuetas de melhor filme, direção de arte e roteiro adaptado. Recebeu ainda indicações nas categorias de melhor ator, atriz, diretor e fotografia. Quanto ao “Cimarron” de 1960, apesar de  mais modesto, ainda conseguiu ser indicado ao Oscar por ‘Melhor Direção de Arte’ e ‘Melhor Som’.
Se apesar de todos esses argumentos, você ainda continuar na dúvida quanto a leitura do livro, só posso dizer: paciência.

Inté! 

Um comentário:

  1. Bom, não é os Yancey, mas os Cravat. A história é incrível. Adoro ver o amadurecimento da Sabra, uma mulher forte, e vê-la vencendo os próprios preconceitos, como os que ela tem em relação aos índios. Edna Ferber é maravilhosa.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...