terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Livro “12 Anos de Escravidão” chega ao Brasil em fevereiro desmistificando os contos de fadas de sinhozinhos e sinhazinhas



Cena do filme que estreou em outubro nos EUA e chega ao Brasil em fevereiro

Há estórias de escravos e também histórias de escravos. Calma aí que eu vou tentar explicar. Deixe-me divagar um pouquinho, prometo que serei breve. Bem, na época dos meus 10  ou 12 anos, lembro vagamente que tinha o hábito de ficar fuçando nos livros do meu irmão mais velho e foi durante essas fuçadas que acabei me apaixonando pelos romances sobre escravidão e abolicionismo. Quando chegava em casa, após as aulas, engolia a comida do almoço e já mergulhava no mundo mágico criado por José de Alencar, Bernardo Guimarães e Maria Pacheco Fernandes. E neste mundo imaginário, por mais que os escravos sofressem injustiças no corpo e na alma, no final, um deles ou alguns deles sempre conseguiam se levantar e dar a volta por cima; contando, é claro, com a ajuda de uma patroa ou patrão bonzinho. Cara, eu  chegava a ficar com ódio de tantas injustiças cometidas, coisas atrozes, mas depois respirava aliviado e até mesmo vibrava com a vitória dos escravos sofredores e o castigo impingido aos coronéis e seus capangas algozes. Moral da história: o lado do ‘mocinho’ sempre vencia, enquanto os ‘bandidões’ levavam aquela fumada gostosa.
Pois é, essa imagem romanceada do período escravocrata me perseguiu por muito tempo, talvez devido ao meu comodismo, já que não procurei ler outras obras sobre o assunto e digamos que... acabei parando no tempo. Então, na semana passada descobri que já estava disponível na Internet o filme “12 Anos de Escravidão” do diretor britânico Steve McQueen que está concorrendo a uma batelada de Oscars. Não pensei duas vezes: fiz o download do filme e depois da legenda. Putz galera, desculpem aí, sei que essa atitude não foi legal, afinal de contas, a obra cinematográfica de McQueen só deve estrear no Brasil em 21 de fevereiro, por isso... bem... ficou um clima meio que de pirataria no ar. Mas quer saber de uma coisa: que se dane! A vontade de ver um filme sobre um tema que havia despertado precocemente a minha curiosidade literária era muito mais forte do que esse tipo de escrúpulo.
Quando terminei de assistir “12 Anos de Escravidão” fiquei completamente atordoado, mas grato porque o filme de McQueen, com certeza, desmistificou a chamada falsa escravidão, mostrando sem meias verdades a crua, dura e sangrenta realidade do período da escravatura americana e que não difere muito do Brasil.. Nesta realidade, a escrava sofredora não se casava com o ‘sinhozinho’ que flechado por cupido passava a carregar um caminhão de concreto por ela. Esta realidade não vendia mentiras ou contos de fadas. Nela havia o impacto de um chicote no corpo nu que mutilava a carne, retirando lascas de pele e sangue. Não havia senhores de escravos bonzinhos e nem namoro de homem branco com escrava negra. Ao invés desse paraíso, há a verdade crua dos estupros de escravas, a agressão dessas escravas pelas mulheres dos coronéis; além das sessões de tortura que faziam inveja ao próprio Marquês de Sade. Enquanto que nos livros que eu lia em minha infância, os escravos sempre venciam, no filme de McQueen, eles morriam.
Capa original do livro
Após assistir a “12 Anos de Escravidão” passei a dizer que existem histórias e Histórias de escravos. Com certeza, o filme de McQueen é uma História. Capiche?
Os leitores desse post devem estar questionando porque dou tanta credibilidade para esse filme. É simples pessoal. A história foi baseada num livro escrito por Solomon Northhrup, um escravo que viveu essa realidade. Ele estava lá, no meio do inferno e registrou tudo com os seus olhos. E mais; ele conseguiu sobreviver a esse inferno para depois poder escrever as suas memórias. E a boa notícia para todos os leitores que acompanham esse blog é que o livro autobiográfico publicado em 1853 e que inspirou o filme de McQueen será lançado no Brasil no final de fevereiro, na mesma data que a produção cinematográfica estrear aqui na terrinha.
Solomon foi um homem negro que nasceu livre e permaneceu assim por mais de trinta anos durante um período em que os Estados Unidos vivia em  pleno regime escravagista. Ao fim desse período, Solomon - um afro-americano descendente de escravos -  que era uma pessoa culta e um violinista de grande talento acabou recebendo uma falsa proposta de trabalho, sendo seqüestrado, drogado e comercializado como escravo na região do Rio Vermelho, no estado de Louisiana. Ele permaneceu nesta situação durante 12 anos, sofrendo os piores horrores que um ser humano pode imaginar: humilhações, açoites, espancamentos, etc e mais etc. Presenciou ainda o sofrimento e o assassinato de muitas pessoas que ao longo desses 12 anos haviam se tornado seus amigos do coração. Ele também chegou a conclusão de que para sobreviver, jamais poderia revelar que era alfabetizado e culto.
Solomon conseguiu a sua liberdade após ser resgatado por um advogado abolicionista que no filme é interpretado por Brad Pitt. Ele escreveu o livro em seu primeiro ano de liberdade e também tornou-se um palestrante muito conceituado em todo o nordeste dos Estados Unidos. Enfim galera, tanto livro quanto o filme são verdadeiros exemplos de superação.
A obra literária deve ser lançada pela Penguin Companhia, selo da editora Companhia das Letras. Com certeza, o ‘livrão’ já foi incluído com antecedência em minha lista de leitura e como direito a furar a fila.

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