segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Incêndio de Tróia



Existem professores que marcam demais as nossas vidas. Uhauu! E como marcam! No meu caso foram os “teacher's” do antigo segundo grau; hoje ensino médio. Caramba, cada “peça”! E que saudades dessas “peças” tão especiais. Sabem de uma coisa? Eu sinto mais saudades desses professores do que daqueles que lecionaram em minha época de universitário. Sei lá, talvez, por ter sido uma fase mais ‘irresponsável’ de minha vida, onde podia aprontar poucas e boas com a minha ‘tchurminha’ – da qual me lembro até hoje – do que daquele período mais sério, tão característico do terceiro grau.
A pressão dos meus queridos velhos era enorme. Coisa do tipo: “Carinha eu estou lhe ajudando a pagar os estudos, mas vê se leva a ‘coisa’ séria pô!! Ehehehe. Imagine só, o Kid Tourão me chamando de ‘carinha’ naquela época. Não é ‘de morrer de rir’?! Pois é, então no meu caso, por causa das cobranças, passava a ver os estudos com mais seriedade. O que me interessava eram os livros, as lições e as aulas práticas nos estúdios de rádio e TV; quanto aos ‘teachers’ daquele tempo, sinceramente não me atraiam. Eram sérios demais, Caxias demais, enfim, chatos demais.
Putz! Verdade! Bateu uma saudades ‘enormemente enorme’ do meu segundo grau, caraca...
Tinha um professor de Química que se chamava Herintos. O sujeito – aliás, muito bom sujeito – era louquinho de pedra. Ele não permitia que ninguém colasse em sua aula. “Aluno que não tem capacidade de guardar na cabeça o que eu ensino não merece passar de ano”, dizia o mestre. Então, adivinhe o que ele fazia para evitar que os mais saidinhos evitassem transformar as suas provas no ‘Dia Mundial da Cola’? Vai diz aí. Pense numa coisa bem absurda. Já pensou? Então ‘sente o drama’: Ele colocava uma cadeira em cima de sua mesa de professor, sentava todo folgadão e ficava observando, lá de cima, todos nós, meros mortais (rs). Até um dia em que o ‘sumido’ teacher (nunca mais o vi) se descuidou e caiu um tombaço de cima do seu “Monte Olimpo” particular. Madre de Dios! E que tombo ridículo! Tudo bem que foi um tombo feio, mas não deixou de ser ridículo ao extremo. E prá completar a cena dantesca, o Bandeira, filho de um conhecido boiadeiro da cidade, soltou o peito gritando lá do fundo da sala de aula: “Seguuuuuuura peãooo!!!! Agarra o boi que ele é mansoooo!!!”. Cara, palavra que não estou conseguindo segurar as gargalhadas enquanto digito essas linhas. Que recordação! E o tal Herintos que era baixinho, gordinho,  sem pescoço e atarracado, de fato, se parecia um boizinho. Enquanto o Bandeira narrava a queda, a pobre vítima se levantou de ‘cata-cavaco’ e fulminando a classe com um olhar assassino soltou: “Seus bando de disgramados – disgramados mesmo e não desgraçados – vão rir da PQP!!”. Que cena... que cena... Não posso deixar de rir!
Havia outro professor; esse sim relacionado ao post que escrevo agora e que também detestava o chamado aluno colão. O professor Luizinho era estrábico. Pêra aí, estrábico não. Ele era vesgo mesmo!! E daqueles vesgos enviezados que nem mesmo os óculos grossíssimos conseguiam disfarçar. Acho que o saudoso Luizinho – já faleceu – era o único professor que conseguia dominar a nossa classe nos dias de prova. Com ele não dava prá arriscar, já que todas as táticas de guerra colantes se tornavam falíveis. Imagine aquele sujeito que você que tem a certeza absoluta que está olhando para você, mas na verdade está observando o seu amigo que está do outro lado do salão. Pois é, o Luzinho era assim. E foi com esse querido professor de literatura (pode acreditar amigo, no bom e velho segundo grau tínhamos tínhamos aula de literatura) com os seus olhos tortos que aprendi uma máxima: “Mitos não devem ser mexidos; mas se um dia a curiosidade for grande demais e você quiser ‘vasculhá-los’, procure se municiar de todas as informações possíveis e impossíveis para não pagar mico”. Etcha vesguinho filósofo! Tá certo que um filósofo meio baratinho, mas venhamos e convenhamos, essa sua teoria tem tudo à ver com o assunto desse post.
Então, à partir de agora, entro no assunto “O Incêndio de Tróia”, aproveitando essa ‘teoria’ do inesquecível mestre vesgo. Há escritores – poucos, mas há – especializados em publicar obras, digamos que desmistificadoras. Mas é aí que mora o perigo. Há mitos que já estão arraigados no imaginário popular e que dificilmente serão rompidos ou mudados. A chamada Guerra de Tróia é um deles.
Agora me perdoem os fãs de Marion Zimmer Bradley, mas em minha opinião ela quis ir além da desmitisficação o mito; acredito que ela quis ‘brincar’ (no bom sentido) com esse mito, fazendo uma adaptação livre da Guerra de Tróia. E foi aí que a coisa pegou e pegou mal.
Quem leu “Ilíada” (Homero), “Tróia – O Romance de Uma Guerra” (Claudio Moreno) e “Ilíada: A Guerra de Tróia” (Menelaos Stephanides) sabe do que estou falando escrevendo. Quem aprendeu a conviver, ao longo dos anos, com esses personagens gregos e troainos fantásticos que foram até mesmo temas de trabalhos escolares em nossas vidas de estudantes ginasiais, sente uma “facada”  no peito ao vê-los completamente modificados no livro de Bradley. Nele vemos um Aquiles louco, homicida e estuprador de cadáver. E tudo isso com apenas 17 anos! Aliás, ao contrário dos outros livros sobre mitologia grega, em “O Incêndio de Tróia”, o guerreiro, filho de Tétis e Peleu, participa do conflito ainda adolescente. Vemos também uma Cassandra ou Kassandra (como a autora prefere chamar), originalmente sacerdotisa de Apolo, transformada numa guerreira amazona, destoando inteiramente do mito popular. Odisseu ou Ulisses é amigo chegadíssimo de Príamo e também não é o autor da brilhante idéia que derrubou Tróia: o cavalo de madeira. No romance não é o tal cavalo recheado de soldados gregos, o responsável pela queda da cidade com as suas muralhas intransponíveis, mas sim um terromoto. Bradley aproveitou para engatar, também, um romance entre Kassandra e Enéas, outro personagem famoso da guerra. Páris, por sua vez, é um completo idiota e brigão que só serve para ficar trocando  farpas com Kassandra.
Quanto ao embate entre troianos e gregos é tratado com superficialidade, com a autora optando por centralizar a sua história nos conflitos pessoais de Kassandra, o que torna o livro cansativo na maior parte de suas 517 páginas. Sei lá pessoal, para mim, faltou um melhor equilibro entre aventura e drama. Quase tudo é centralizado em Kassandra, transformando os outros personagens em meros coadjuvantes.
A luta entre Heitor e Aquiles que é um dos pontos altos da épica história acontece de uma maneira simplória demais: tipo pá-buf e pronto, acabou. O mesmo ocorre com o embate entre Enéias e Diomedes e assim por diante. Como disse as mais de 500 páginas de “O Incêndio de Tróia” são dedicadas as brigas entre Kassandra e seu pai, Príamo; as tentativas de Krises (um dos sacerdotes de Apolo) em ‘traçar’ Kassandra, o que diga-se de passagem, enche o saco do leitor; as viagens da moça até a Cólquida onde vai conhecer os segredos de manusear serpentes; os conflitos com a sua mãe Hécuba; os desabafos com sua tia, a amazona Pentesiléia e etc e mais etc. De fato, essa dose cavalar de drama, recheada de personagens completamente destoantes daqueles da mitologia grega, os quais aprendemos a conhecer ao longo de nossas vidas, deixa o livro muito enfadonho e estranho..
Quanto ao Aquiles idealizado por Bradley foi um chute no saco, daqueles dados com uma bota bicuda e com uma chapa de metal na ponta. O cara é um louco homicida. Tão louco, vil e tarado,  que após matar uma amazona, ainda decide estuprar o seu cadáver publicamente, no meio do campo de batalha!!!
Helena, mesmo sendo – juntamente com Páris – a causa da guerra e consequentemente do sítio de Tróia, acaba conquistando a confiança e o respeito de todos os troianos. No livro vemos apenas o lado bom da personagem, sem as suas fraquezas e dúvidas.
Concordo que Bradley acertou a mão em “As Brumas de Avalon”, mas em “O Incêndio de Tróia” errou feio. Tenho a impressão de que a autora quis brincar com um verdadeiro símbolo da mitologia grega e infelizmente se deu mal.

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