segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Moscou contra 007



Tenho o hábito de dizer que os ‘livros de 007’ não tem nada a ver com os ‘filmes de 007’. Que fique bem claro que estou me referindo aos livros de Ian Fleming e não aquelas verdadeiras aberrações escritas por outros ‘autores-herdeiros’ que tentaram substituir o pai e criador do mais famoso agente secreto de todos os tempos. Aqui, vale frisar que por enquanto, eximo Jeffery Deaver do rol dos escritores carniceiros que estropiaram Bond, mesmo porque ainda não li Carte Blanche.
Mas como estava falando escrevendo, livro e filme são muito diferentes. A história escrita supera em muito as adaptações que são levadas para as telas. Por melhor que seja o diretor, é muito difícil transpor para a sétima arte a magia do enredo que saiu da cabeça de Fleming.
Li todos os livros sobre 007 escritos pelo autor e confesso que após assistir aos filmes baseados nesses livros bateu uma pontinha de decepção, pois muitas coisas foram modificadas ou então “podadas” da história. Até mesmo, as características originais de James Bond foram alteradas. O agente dos livros não é aquele super-herói imbatível que vemos nas telas, acostumado a arrebentar todo mundo na porrada. Nada disso, em algumas histórias, ele soa a camisa para derrotar os vilões e seus capangas. O personagem “Q”, responsável pela fabricação das engenhocas ultra-sofisticadas usadas por Bond nos filmes, só aparece, ‘malemá’, em um dos 14 livros escritos por Fleming sobre o agente secreto. As cantadas freqüentes de Bond em MoneyPenny foi outra invenção dos produtores, roteiristas e diretores. Se somarmos os 14 livros, a recatada secretária de “M” deve aparecer apenas em quatro ou cinco páginas. Ah! Esqueça também o Bond galinha do cinema que leva para a cama todas as mulheres que encontra pela frente. Um verdadeiro comedor. O Bond de Fleming tem sentimentos e se apaixona sim!
Por isso quando alguém lhe perguntar se não vai ler um dos  livros de James Bond escrito por Fleming jamais responda: - “Vou não, já assisti ao filme”. Cara, você estará cometendo uma blasfêmia que lhe dará um passaporte direto para o mármore do inferno, sem direito a purgatório!
Feitos os devidos esclarecimentos sobre o personagens, vou agora, voltar ao tema desse post que é o livro “Moscou contra 007” que li há uns dois anos. Lembro que na época, demorei quase três meses para concluí-lo; não que a leitura estava maçante, nada disso; é que estava desenvolvendo alguns projetos profissionais, dormindo de madrugada e somado à isso, fazendo outras leituras simultâneas de livros técnicos relacionados a minha profissão. Mesmo assim, tive pique para ‘curtir’ a história. Depois engatei a leitura da coleção completa sobre Bond, menos é claro, as monstruosidades dos escritores carniceiros. Preferi ler os 14 livros respeitando uma cronologia, ou seja, seguindo os anos em que foram lançados.
A coronel assassina da Smersh, Rosa Klebb. Ô coisa feia!!
Se você pretende ler “Moscou contra 007”, saiba que ela é totalmente dependente de “Dr. No”. Explicando melhor: “Dr. No” é a sequencia direta e indispensável de “Moscou contra 007”. Se você quiser saber o que aconteceu com James Bond no final de seu duelo com a agente da SMERSH, Rosa Klebb que acontece nas páginas finais de “Moscou contra 007”, obrigatoriamente, você terá que ler “Dr. No”.
Fleming realmente se superou nessa obra. O livro é fantástico. Na minha opinião, o melhor dos 14 sobre o agente inglês. A SMERSH, departamento soviético de contra-espionagem que tem por objetivo principal eliminar agentes ocidentais, decide colocar em prática um plano para desestabilizar o serviço secreto britânico. Para isso, os estrategistas russos pretendem não só matar, mas também desmoralizar o principal agente do mundo ocidental que está à serviço de Sua Majestade. Advinha quem? Para isso, a SMERSH lança uma isca do tipo que o espião inglês jamais recusaria: uma mulher bonita e sensual e aparentemente em apuros. Mesmo sabendo que tudo pode ser uma armadilha, Bond vai para Istambul e entra de cabeça em um perigoso jogo em que as regras nunca são claras. E as traições podem mudar o resultado da partida a qualquer instante.
Logo nas primeiras páginas do livro, o autor já faz uma apresentação do super-vilão que será enviado com a missão de eliminar Bond: o assassino ultra-treinado da SMERSH, Red Grant.
Klebb e seus sapatos letais
O leitor vai tomando conhecimento da letalidade de Grant pelos olhos de uma massagista que é contratada para cuidar da forma do vilão. “A moça trabalhou o braço, subindo até os bíceps salientes. Como esse homem tinha desenvolvido músculos tão fantásticos? Seria um boxeador? O que ele fazia com esse corpo formidável? ... “Era um trabalho árduo. O homem era imensamente forte e os músculos na base do pesco mal cediam sob os polegares da massagista”...
Fleming utiliza aproximadamente cinco páginas para descrever os atributos físicos de Grant e quase toda a metade do livro para apresentar a origem do assassino russo, os detalhes do plano da SMERSH, além de outros três personagens importantes que fazem parte da hierarquia do departamento de contra-espionagem russo e que terão participações decisivas no decorrer da história. São eles: a coronel Rosa Klebb, o estrategista Kronsteen e a isca Tatiana Romanova. James Bond só vai aparecer pela primeira, perto da metade do romance que tem mais de 300 páginas na edição de luxo publicada pela Record em 2003.
Mas nem por isso, o enredo desenvolvido por Fleming perde o interesse; pelo contrário, faz com que o leitor fique ainda mais preso e compenetrado na trama.
A cada página, nós vamos tendo uma noção da pedreira que Bond vai enfrentar. Os vilões Grant e Klebb são tão letais, o plano engendrado pelo camarada Kronsteen é tão perfeito e a isca Romanova é tão convincente que nos leva a acreditar que o agente inglês, apesar de toda a sua capacidade, dificilmente conseguirá se safar dessa teia.
O que mais me prendeu na história foi a descrição dos vilões feita por Fleming. Conhecemos, por exemplo, toda a origem de Red Grant, desde a sua adolescência complicada o que contribuiu para que se tornasse um perigoso psicopata. Rosa Klebb, por sua vez, é apresentada como uma mulher medonha, mais feia do que a morte! Além de ardilosa, maldosa, perversa e homicida. No livro ela tem pouco mais de um metro e meio, além de ser atarracada com braços grossos, pescoço curto e batatas da perna salientes. É descrita como ‘cara de sapo’. O que ela tem de feiúra, tem de maldade.
Red Grant no filme Moscou contra 007
No decorrer da história, Bond vai se enroscando cada vez mais no ardiloso plano desenvolvido pela SMERSH, deixando o leitor com o coração nas mãos.
O parceiro de Bond nessa aventura, o agente de Istambul,  Kerim Bey também é outro personagem que prende o leitor. Por tudo isso, ouso afirmar que “Moscou contra 007” é o livro de Fleming que conta com os personagens mais marcantes de toda a saga. Tão marcantes que faz com que nem sintamos tanta falta de James Bond que como já disse, só vai aparecer depois muitas páginas lidas.
Spoiler: O que algumas pessoas desconhecem é que os quatro livros sobre James Bond escritos por Fleming anteriormente à “Moscou contra 007” (Cassino Royale, Viva ou Deixe Morrer, O Foguete da Morte e Os Diamantes São Eternos) vinham tendo pouca repercussão, deixando o autor muito abatido. Por isso, ele teve a louca idéia de simplesmente matar o espião no final de “Moscou contra 007”!! Isso mesmo! Fleming pretendia encerrar a carreira do agente inglês, mas o romance fez tanto sucesso após o seu lançamento que chegou a conquistar a simpatia de uma pessoa muito famosa. Ninguém mais do que o presidente Kennedy que elegeu a obra como  o seu livro de cabeceira. A declaração de Kennedy somada ao enredo perfeito de “Moscou contra 007” foram suficientes para alavancar as vendas das histórias anteriores do agente britânico. Pronto! Essa reviravolta acabou obrigando Fleming a “ressuscitar” James Bond, o que aconteceria no livro seguinte: “Dr. No” que por isso passou a ser encarado como uma sequência direta de “Moscou contra 007”.   
Inté!

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