sábado, 2 de julho de 2011

O incrível homem que encolheu

Antes de tudo quero parabenizar a Novo Século pela iniciativa de publicar os antigos clássicos de Richard Matheson, considerado, por mim, um dos gênios da literatura de terror. Se não fosse essa editora, com certeza, estaríamos privados de verdadeiras obras primas como “Eu Sou a Lenda” e “O Incrível Homem que Encolheu”. Para você ter uma noção da importância dessa idéia da Novo Século, basta dizer que o livro “Eu Sou a Lenda”, publicado pela editora Francisco Alves há 30 anos se tornou uma autêntica “peça” de colecionador. Quanto ao “Incrível Homem que Encolheu”, pode esquecer, pois desconheço alguém que tenha o livro antes do lançamento por parte da Novo Século.
Mas vamos ao que interessa: “O Incrível Homem que Encolheu”. Acabei de ler o romance há menos de dois dias, agora estou devorando os outros nove contos que completam a obra. Fiquei tão impressionado com a história de Socott Carey que nem esperei terminar a leitura do livro em seu todo, ou seja, com os outros contos. Quero dividir com vocês a impressão que tive dessa história fantástica; depois farei um novo post opinando sobre os outros nove contos do livro, assim como fiz com “Os Contos Fantásticos de Eu Sou a Lenda”.
Uma história angustiante, claustrofóbica e aflitiva. É dessa forma que defino as 203 páginas da sofrida saga de Scott Carey, popularmente conhecido como “O Incrível Homem que Encolheu”. À cada página virada sentia um aperto no peito e juro que após terminar a narrativa fiquei muito impressionado, aliás, impressionado demais. Tanto é, que cheguei até medir a minha altura “umas” duas vezes. Aha, aha, aha, aha... Você está rindo é? Debochando? Ok, ok.... então lhe convido a encarar a leitura do livro. Depois me escreva se tenho ou não razão.
Imagine alguém que após uma combinação de dois acidentes descobre que vem perdendo exatos três milímetros por dia. O infeliz sujeito tenta de todas as maneiras reverter essa situação, mas nenhum médico ou pesquisador consegue solucionar o problema. E assim, a sua via crucis vai prosseguindo até culminar, quem sabe, no fim de sua existência quando atingir a marca de zero milímetro.
Sei que à primeira vista pode parecer difícil algum leitor se impressionar com um enredo tão inverossímil como este. Mas não se esqueça que o autor da história é o mestre Richard Matheson, capaz de transformar uma idéia banal num verdadeiro pesadelo kafkiano.
Matheson escreveu o seu romance em dois atos que se cruzam durante toda a história. No primeiro ato, ele nos mostra a luta do personagem principal em tentar encontrar uma solução que o faça parar de encolher. Essa parte da história é angustiante; muito mais do que o segundo ato, que mostra as aventuras do personagem já numa altura milimétrica, enfrentando um gato, uma aranha “viúva negra” e um pardal, além de tentar escalar, no porão de sua casa, cadeiras e armários com uma linha de costura (que para ele seria o mesmo que uma corda bem grossa) em busca de comida.
Achei o primeiro ato da história mais impressionável porque expõe ao máximo todo sofrimento de Carey. Ele sabe que vai acordar cada dia menor e isso dá uma aflição enorme em quem lê o romance. Matheson desnuda sem nenhuma piedade essa agonia do personagem. Primeiro ele perde o respeito da mulher e depois da filha que é apenas uma criança. Isso fica evidente num trecho do romance: “portanto, quando ele deixou de medir um metro e oitenta e dois e sua voz deixou de ser a voz que ela conhecia. Beth deixou de enxergá-lo como seu pai... e foi isso o que aconteceu: o respeito da menina foi se desvanecendo mais e mais. Sobretudo, quando o nervosismo de Scott começou a lhe provocar acessos de raiva. Ela não podia compreender ou apreciar... E naquele momento, ele não passava de um horrível anão que gritava e esbrabejava com uma voz muito divertida. Para ela, deixara de ser um pai e se transformara numa esquisitice”.
Quanto ao sofrimento relacionado a sua esposa, Scott Carey desce ao fundo do poço quando descobre que não pode mais satisfazê-la como homem e tão pouco sentir prazer. Por isso quando fica menor do que um anão, ele chega ao ponto de se apaixonar platonicamente pela babá de sua filha, uma moça gorda, atarracada e medindo menos de um metro e meio. É uma das poucas passagens cômicas do livro. Scott, escondido atrás da janela do porão, passa a contar os minutos para “engolir” a babá com os olhos, satisfazendo assim, os seus desejos secretos.
Outra situação humilhante mas ao mesmo tempo dramática, é o momento em que o incrível homem que encolheu implora para que a sua esposa Louise o deixe passar uma noite com uma anã que trabalha num circo. Cara! Juro que fiquei emocionado nesta parte do livro. Coloquei-me no lugar do personagem principal e pude sentir toda a sua angustia. Scott diz à Louise que conheceu uma mulher de sua estatura e quando é contestado pela esposa, ele retruca respondendo, quase a beira das lágrimas que não lhe resta coisa alguma e que dentro de pouco tempo aquela anã será uma gigante para ele. “A única coisa que posso esperar do futuro é a desintegração. Continuarei assim, dia após dia, cada vez menor e estarei sozinho. Mesmo essa mulher (anã) estará fora do meu alcance. Mas agora, Lou, por hora, ela é companhia, afeto e amor”.... “Você ainda pode ter quem você quiser, e quanto a mim?”.... Isso é apenas uma pequena parte do diálogo que compõe a cena dramática entre Scott e sua esposa Louise.
Mas “O Incrível Homem que Encolheu” não se resume somente a drama e angústias; brinda também os seus leitores com muita ação, aliás, cenas antológicas, como o embate mortal entre o milimétrico Scott e a aranha viúva negra que habita no porão. É de prender a respiração do leitor. A perseguição do pardal que ataca o infortunado personagem também é outra parte do livro que vale a pena. Quanto a luta com o gato, é outro momento antológico.
E prepara-se para o final do livro que rompe todos os paradigmas que você construiu durante a leitura. O que quero dizer é que Matheson, inteligentemente, preparou o leitor – durante toda a história – para um final óbvio, que inclusive o próprio personagem aguardava de maneira resignada.  Então... então... bem... chega né, senão vou transformar esse post num festival de spoilers.
Mas preste atenção no final da história; com certeza você que não conhece o livro, nem o filme baseado na obra, terá um choque.
E para finalizar, quero registrar a maravilhosa arte da capa da obra. De fato, a editora Novo Século caprichou. Foi muito feliz.
“O Incrível Homem que Encolheu” é o tipo de leitura que posso definir como obrigatória para os fãs do gênero fantástico com pitadas de terror e drama. Vale à pena!
Voltarei nos próximos post escrevendo o que achei dos nove contos que completam o livro. Adianto que já li “Pesadelo a 20.000 pés” e “O Teste”... por enquanto estou gostando. Inté!

Um comentário:

  1. Oi!Sempre leio as suas resenha e adoro as dicas literárias que aparecem por aqui. Ainda estou iniciando no gênero terror/sobrenatural/realismo fantástico a que parece pertencer esse livro.
    Se muito dinheiro eu tivesse compraria a maioria do livros que passam por aqui.
    ^^

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